terça-feira, 4 de agosto de 2009

Justiça Feita

Você lembra do caso da FNAC, que anunciou TVs e MacBooks a R$ 9,90 no site por causa de uma falha? No fim, a loja cancelou os pedidos. Depois veio o caso da Dell, em Taiwan, que foi obrigada pelo governo a vender monitores a 15 porque anunciou errado. Mas este é fenomenal: um professor em Porto Alegre queria que a concessionária lhe vendesse um Alfa Romeo zero-quilômetro, importado da Itália, a 170 reais, porque viu um anúncio meio errado no jornal! E se deu mal.

O professor Jorge Alencastro de Oliveira Junior viu um anúncio de um Alfa Romeo 166 zero-quilômetro no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, a US$ 59,30 — na época, o equivalente a R$ 171,97. Então ele foi na concessionária San Marino aproveitar a mágica oferta. Mas, para sua surpresa (aham), o carro custava US$ 59.300! A concessionária disse que o valor no quadro de preços do jornal deve ser multiplicado por mil, como dizia o próprio anúncio. Pra você ter uma ideia: hoje, usado, o Alfa Romeo 166 custa uns cinquenta mil reais.

Para Alencastro, isso não foi o suficiente: ele abriu um processo contra a concessionária por propaganda enganosa e entrou com ação para "cumprimento forçado da obrigação". Queria porque queria seu Alfa Romeo "cor azul metálico ou qualquer outra cor, caso esteja em falta a cor supracitada" — porque ele é camarada e não se importa se não tiver a cor que ele mais gosta.

A ação tramitou na Vara Cível; o juiz negou o pedido. Alencastro recorreu. A ação foi para a Câmara Cível: aí o professor se deu mal. Essas são as palavras do desembargador Claudir Fidelis Faccenda, responsável pelo caso:

[N]ego provimento ao apelo e condeno o autor nas penas de litigante de má-fé e o condeno ao pagamento de multa prevista no artigo 18 do CPC [Código de Processo Civil] no equivalente 1% (um por cento) sobre o valor atualizado da causa.

Não só o professor perdeu a ação, por ser acusado de má-fé, como foi obrigado a pagar 1% sobre o valor questionado na ação. E Alencastro teve que pagar US$593 (ou R$1.719,70), porque quis ser esperto.

Pior! O professor entrou com outro processo na Vara Cível, só que dessa vez queria levar um Mercedes-Benz ML 500 — também azul metálico, se tiver! — a preço de banana. Este outro processo é citado no acórdão da Câmara Cível, mas não está disponível online.

Já dissemos que essa história de "o cliente tem sempre razão" é levada a extremos no Brasil. Este caso serve pra ilustrar bem o que é direito e o que é "jeitinho". Pô, você quer levar a menos de duzentos mangos um carro que custa R$ 171.970,00? Da mesma forma: você quer levar a menos de dez mangos uma TV que custa R$2.000? Entrar na Justiça para exigir isso é, como bem disse o desembargador Faccenda, "má-fé" e "busca por enriquecimento ilícito". Afinal, você pode revender seu carro/TV a preço mais alto e lucrar com isso — como acontece no contrabando de mercadorias, por exemplo. Você tem mesmo direito de fazer isso?

O caso não é novo, aconteceu em 2005. Mas teve pouca repercussão na mídia, apesar de ser um ótimo contra-exemplo, e chegou ao nosso e-mail por um leitor antenado. Lição: se a empresa não cumpre com o que promete, merece ser punida (vide Telefônica); mas se for só um jeito de alguns serem "espertos" e causarem prejuízo, não vale — só em Taiwan mesmo. [via Jurid; valeu Marcelo!]

Comic-Con : Surfista Prateado

Comic Con é maior evento de HQs e cultura pop do mundo. É um prato recheado para quem gosta da cultura “nerd”. Claro que sempre nestes eventos tem os fãs dos personagens de quadrinhos, desenhos e filmes que vão fantasiados. Alguns chegam a se fantasiar tão bem que você não sabe dizer se é o personagem do filme que está alí na sua frente, ou alguém fantasiado.

Vejamos um exemplo de fantasia do Surfista Prateado:

http://i178.photobucket.com/albums/w268/lamenza/surfista-prateado-01.jpg


E este o original dos cinemas e quadrinhos:


Se eu não falo, vocês notariam as diferenças?

O Homem Invisível Existe

Liu Bolin

Se você olhar de supetão pode achar que realmente a ciência deu um grande passo: o advento do homem invisível! Na verdade, trata-se do artista chinês Liu Bolin, um camaleão urbano.

Com uma técnica de pintura impressionante e minimalista, o chinês da cidade de Shandong, mistura-se à paisagem: de cabines telefônicas a escombros de terremotos. Com as tintas, Liu absorve o ambiente no seu corpo, que se transforma em tela de carne e osso, e se insere na paisagem, criando um efeito bem curioso.

Liu Bolin


A inspiração para desenvolver o trabalho surgiu após o governo chinês expulsar Liu do ateliê. Cada trabalho de "invisibilidade" pode durar até dez horas para ficar pronto.


Liu Bolin


Digital Art created by Liu Bolin found at GalerieBertin


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O Paradoxo de Braess e a Ampliação da Marginal

http://scienceblogs.com.br/100nexos/2009/07/o_paradoxo_de_braess_e_a_ampli.php


escheraudi

Ampliação da marginal em São Paulo. Um paradoxo matemático de resultado dos mais curiosos, abrangendo desde o congestionamento de carros até a lentidão de sua internet. E uma Mente Brilhante? Todos estes nexos arrematados neste post.

A Marginal e o Paradoxo

No mês passado, o governo do estado e a prefeitura de São Paulo anunciaram a Nova Marginal do Tietê, um investimento de R$1,3 bilhão criando 23 quilômetros de novas vias, que reduziriam o tempo das viagens em “cerca de 35%”. Como as novas vias ocuparão canteiros que abrigam em torno de 4,5 mil árvores, e como todo o projeto é obviamente um incentivo ao transporte individual, surgiram críticas e protestos. O Rastro de Carbono abordou o causo das árvores da Marginal Tietê, teve ainda uma continuação e comentou um vídeo. Este post não irá abordar nada disso, exceto um detalhe: a premissa de que a ampliação da marginal melhorará o tráfego.

Pois este é o paradoxo de Braess: mais estradas podem por vezes significar mais congestionamento. O resultado contra-intuitivo deriva de agentes escolhendo individualmente o caminho que lhes é mais rápido, fazendo com que coletivamente todos acabem levando mais tempo. Dito assim pode não soar como grande surpresa, mas ainda que todos motoristas sejam senhores Wheeler, como adicionar uma super-rodovia pode atrasar a todos?

braess_a

Esta é a ilustração clássica do paradoxo do alemão Dietrich Braess. Motoristas desejam ir do nó (s) à esquerda até o (t), e há quatro trechos ligando os dois extremos. Dois trechos levam um tempo fixo de 1 hora para serem percorridos, dois outros levam um tempo que é proporcional à quantidade de carros que o atravessam, digamos que 100 carros levarão meia hora, 200 carros levarão uma hora e assim por diante.

Não é preciso nenhum grande cálculo para ver que no diagrama acima, a solução ótima divide o tráfego de carros igualmente pelos dois caminhos, que ao final são idênticos, embora em ordens diferentes dos trechos. Duzentos carros assim se dividiriam meio a meio em cada trecho, e o tempo total para que todos eles atravessem de um ponto a outro seria de 1,5 hora (1 hora fixa + 1/2 hora de 100 carros em cada trecho variável).

braess_b

Suponha então que um prefeito chamado Falum resolva construir uma mega-obra: o túnel de teletransporte Falim Fará Falum. É um túnel hiper-avançado com buracos de minhoca, e o tempo para atravessá-lo é zero! Independente do número de carros! Isso mesmo! Zero! Isso deve ajudar o trânsito! Falum é que fez, Falum é que faz!

O detalhe é que o túnel de teletransporte Falum liga os nós (v) e (w). Se você pensar um pouco sobre a situação, verá que esse maravilhoso túnel não deve melhorar o tempo de trânsito. Em condições ideais, o trânsito já está igualmente distribuído nas duas rotas principais, superior e inferior, e interligar essas duas rotas naquele ponto não aliviará trânsito algum. É como sair de um trecho que leva uma hora e meia para pegar outro que leva 90 minutos.

Só isso já deve mostrar como construir túneis de teletransporte, ou mesmo mais estradas, não melhora necessariamente o trânsito. Mas este não é paradoxo! O paradoxo é que construir mais estradas, ou mesmo túneis de teletransporte, pode piorar o trânsito.

Considere novamente a ilustração com o túnel de teletransporte, mas agora da perspectiva dos motoristas que vão percorrer esse trajeto todos os dias, dia após dia. Suponha que há apenas 100 carros para fazer o caminho no primeiro dia. Qual seria o caminho ótimo para eles? Simples, de (s) a (v), que levaria meia-hora, pelo túnel Falum, instantâneo, e então de (w) a (t), mais meia-hora. Cem carros chegaram ao destino em apenas uma hora, economizando tempo! Oras, o túnel Falum serviu para alguma coisa afinal! Todos os motoristas agora irão tentar este caminho e saudarão o túnel Falum como uma grande obra!

Nem tanto. Note que lidamos apenas com 100 carros. Anteriormente, havíamos calculado que 200 carros levariam todos 1,5 hora para fazer o trajeto. Se os 200 carros agora tentarem todos percorrer o caminho pelo túnel Falum, todos levarão duas horas. Todos agora perdem meia-hora, usando o teletransporte. Lembre-se: os trechos sv e wt são dependentes do volume de carros.

Seguramente, os motoristas devem perceber que se todos usarem o túnel Falum, todos demorarão mais tempo. Também irão perceber que as estradas de sw e vt agora ficaram completamente vazias. O grande problema, e esta é a chave aqui, é que se você individualmente tentar mudar de caminho, não terá nada a ganhar.

Suponha que 199 motoristas continuem trilhando o caminho pelo túnel, enquanto você experimente sozinho o caminho vazio sw. Bem, esse caminho leva 1 hora. E a partir de (w), você volta à companhia dos outros 199 motoristas, de forma que agora novamente 200, o caminho wt também leva 1 hora. Você continua levando 2 horas para ir de (s) a (t). Curiosamente, o fato de você não tomar o caminho sv beneficia um tanto a todos os outros motoristas… exceto você! Nem você nem nenhum dos outros motoristas consegue qualquer vantagem para si mesmo mudando de rota. Todos agem racionalmente, buscando a rota mais eficiente para si próprios. E no entanto, todos perdem coletivamente. Tudo isso com a introdução de um magnífico túnel de teletransporte.

Este é o paradoxo de Braess, como o matemático o declarou em 1968: “em situações desfavoráveis, uma extensão da rede de estradas pode levar a tempos de viagem maiores”.

Molas e a rodovia Cheonggyecheon

Entender algo do paradoxo não é muito mais difícil do que pronunciar Cheonggyecheon, ao que vamos chegar logo mais, mas aqui está um exemplo análogo ao paradoxo de Braess em um sistema mecânico bem intuitivo. Foi publicado por Cohen em 1991:

braess2

Temos um peso suspenso por duas molas, por sua vez ligadas por um pequeno pedaço de fio amarelo. Importante: este fio não é elástico. Adicione então mais dois fios não-elásticos de “segurança”, vermelhos, ligando a ponta de cada uma das molas ao peso e ao teto, como indicado. Estes fios de segurança têm uma folga, não sustentam nenhum peso.

Agora corte o fio amarelo. Pense rápido: o que acontece com o peso, ele desce, sobe ou continua na mesma altura?

braess2b

A resposta não é tão simples. E pode ser paradoxal. Apesar dos fios de segurança estarem originalmente com folga, cortar o fio amarelo pode fazer o peso subir. É um análogo das estradas de Braess, onde o fio amarelo é o túnel de teletransporte. Corte o amarelo e os fios vermelhos antes não-utilizados agora passam a distribuir melhor o peso, e as molas podem elevá-lo. Em retrospecto, é mesmo óbvio: com o fio amarelo, cada mola sustenta todo o peso. Duas vezes. Cortando-o, as duas molas sustentam cada uma apenas metade dele.

Cortar fios… fechar estradas. Se introduzir estradas pode piorar o tráfego, fechá-las pode melhorá-lo? A resposta não é tão simples, mas você pode imaginar qual pode ser.

Durante as comemorações do Dia da Terra de 1990, o comissário de transporte da cidade de Nova Iorque fechou a 42d Street, rua quase sempre congestionada. “Muitos previram que seria o fim-do-mundo. Não era preciso ser um cientista de foguetes ou ter um sofisticado modelo de computador para ver que isto poderia ser um grande problema”, disse o comissário ao NYT.

Não houve nenhum grande problema, de fato o tráfego melhorou com o fechamento da via.

O que nos leva finalmente a Cheonggyecheon, na Coréia do Sul. Motivado principalmente por uma proposta ambiental e urbanística, o prefeito Lee Myung-bak demoliu a rodovia elevada Cheonggyecheon que passava sobre o rio e movimentava em torno de 160.000 carros. Parte de todo um projeto de renovação, Cheonggyecheon passou disso:

Seoul_BeforeDongdaemunArea

Para isso:

Korea-Seoul-Cheonggyecheon

O que é muito bonito, mas e quanto aos carros? De que vale um belo parque se você arranca os cabelos no trânsito?

Vale muito, porque o tráfego realmente melhorou.

Prisioneiros no trânsito

É importante ressaltar que, ao contrário do que alguns entusiastas “ecológicos” poderão contar, não sabemos ao certo se o caso nova-iorquino ou o sul-coreano são realmente aplicações bem-sucedidas do paradoxo de Braess ao inverso: fechar vias para melhorar o trânsito. Não é algo tão simples como sair fechando rodovias arbitrariamente por aí.

Voltemos aos diagramas lá no início e ao túnel de teletransporte Falum: 100 carros levariam uma hora usando o túnel, lembra-se? Agora faça as contas sem o túnel. Como o fluxo se dividiria pela metade, e 50 carros levariam 15 minutos para percorrer os trechos variáveis, o trajeto levaria uma hora e 15 minutos. Sem o túnel, 100 carros levam mais tempo. A construção do túnel Falum realmente abreviaria o tempo de viagem de todos em 15 minutos, agindo individualmente em seus próprios interesses. Não haveria resultado paradoxal. Talvez não compensasse os custos do túnel de teletransporte, mas Falum teria feito algo útil para o trânsito. Com 100 carros, pelo menos.

Fato é que o paradoxo de Braess só vale em determinadas situações. Com que frequência elas ocorrem na vida real?

Quando as estradas não estão nem ficarão congestionadas, adicionar mais vias provavelmente ajudará. Percebeu como o exemplo clássico de Braess envolve trechos que ficam mais lentos com mais carros? São congestionamentos. Sem eles, as coisas não são paradoxais. Mais vias, mais caminhos, mais carros. Daqui vem nosso entendimento intuitivo do problema.

E quando elas ficam congestionadas? Como no caso da Marginal do Tietê em São Paulo? O paradoxo sempre entra em ação?

Nem sempre. O problema é extremamente complexo, matematicamente. Trabalhando com simplificações e pressupostos “razoáveis”, matemáticos (Steinberg et al, 1983) chegaram ao corolário de que a adição de uma rodovia pode… piorar o tráfego… ou não! Isto é, as chances de que a adição piore o tráfego seriam de 50%. De forma independente, uma simulação por computador (PDF) sugere que até 58% de novos projetos de tráfego propostos em uma cidade podem acabar piorando o trânsito.

Pode ser insatisfatório descobrir que não podemos encontrar uma generalização matemática que dite se a ampliação da Marginal irá gerar um paradoxo e piorar o trânsito. Ou não. Penso que talvez seja melhor assim. Ainda que houvesse um resultado matemático claro e simples, ele provavelmente não poderia ser promovido em sã consciência porque há muitos elementos envolvidos. Não há um resultado matemático claro e simples porque o trânsito não é claro e simples.

A renovação de Cheonggyecheon na Coréia do Sul, por exemplo, não envolveu apenas a transformação de uma rodovia em um parque. Diversas medidas, incluindo a construção de novas vias de acesso para redirecionamento do tráfego e investimento no transporte coletivo, também foram tomadas. Elas podem ter sido mais decisivas para a melhora do que um exemplo do paradoxo de Braess, o qual deve-se repetir, não podemos sequer estarmos certos de ter ocorrido por lá. Podemos estar, talvez, apenas 50% certos.

Isso não impede que estudos e simulações sejam feitos para estimar o impacto que a ampliação da Marginal terá no tráfego. O governo propagandeia uma redução de 35% no tempo das viagens, torçamos com muita fé para que esta estimativa tenha sido feita com modelos de tráfego sofisticados a ponto de simular paradoxos de Braess. Que não tenha sido simplesmente um cálculo feito em um guardanapo sobre o número de veículos que caberiam nas novas vias.

Faltam alguns nexos. A propósito de simulações computadorizadas do paradoxo, as idéias de Braess podem estar afetando sua conexão à Internet neste exato momento. Exatamente como motoristas egoístas, há pacotes de informação transitando por uma miríade de caminhos, com roteadores constantemente direcionando o tráfego para que eles cheguem individualmente no menor tempo possível de um ponto a outro. Se você entendeu o paradoxo de Braess, deve perceber que são exatamente as condições para que ele possa surgir.

Você também pode imaginar como motoristas munidos de aparelhos de GPS e informações de trânsito em tempo real, com computadores calculando sempre o caminho mais curto e rápido, para aquele motorista individual… podem acabar coletivamente atrasando todo o trânsito de uma cidade. Tendemos a pensar que mais informação melhorará a vida de todos, isso não é sempre verdade.

Conhecer e entender algo do paradoxo, além da curiosidade e de sua provável mas complexa aplicação prática em muitos campos, é também uma excelente janela ao fascinante mundo de John Nash. Mais conhecido como uma “Mente Brilhante”. Sabe aquela cena no bar com as garotas? Bem, esqueça-a. O paradoxo de Braess é um exemplo muito mais ilustrativo e um tanto mais próximo de expressar o que rendeu o Nobel a Nash. O equilíbrio estabelecido com a construção do túnel Falum, onde nenhum dos motoristas tem nada a ganhar mudando de rota, é um equilíbrio de Nash. No caso, o paradoxo deriva do fato de que este equilíbrio é pior que a distribuição social ótima. Eles nem sempre coincidem.

Na Teoria de Jogos, o famoso dilema dos prisioneiros é um outro exemplo similar. Se dois prisioneiros se declararem inocentes, ambos ficarão presos por 1 ano. Se acusarem um ao outro, ficarão os dois presos por 3 anos. Se apenas um delatar o outro, o acusado ficará preso por 5 anos enquanto o delator será liberado imediatamente. É evidente que a solução ótima é que os dois fiquem calados. Mas como confiarem um no outro? Sem combinar nada de antemão, cada um só pode concluir racionalmente que o outro irá delatá-lo. Acusando o outro prisioneiro, na pior das hipóteses fica-se preso por 3 anos, na melhor sai-se livre de pronto. Ficando quieto, pode-se ficar 5 anos preso enquanto seu caro amigo sai livre. Ao final, cumprirão juntos três anos.

Seus pacotes congestionados na rede e mesmo o trajeto que você escolhe de carro diariamente podem estar presos ao mesmo dilema. Valeu todo este post para a expressão “estar preso no trânsito” envolver agora a teoria de jogos? Espero que sim.

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Mais:

- Braess's paradox
- Removing Roads and Traffic Lights Speeds Urban Travel
- Huh?! 4 Cases Of How Tearing Down A Highway Can Relieve Traffic Jams (And Save Your City)
- The Price of Anarchy in Transportation Networks
- Coping with Selfishness
- Springing a Physical Surprise
- Professor Braess

Eu Não conheço um Lugar

londres

A melhor maneira de não conhecer um lugar é viajar até ele. De longe você pode estudar um lugar o quanto quiser; de perto você só tem tempo de descobrir o quanto ainda falta para conhecer. Quem viaja a Paris apenas para subir a Torre Eiffel, ver a Mona Lisa e andar de bateau-mouche conhece a sua Paris muito melhor do que quem viaja para conhecer Paris a sério. Se você tem 50 carimbos no seu passaporte, então são 50 países que você não conheceu.

Mas quem disse que é preciso conhecer a fundo um lugar para gostar dele? Segundo os psicanalistas, para conhecer a si mesma uma pessoa precisa de quatro sessões de análise por semana. Não, eu não quero levar viagem nenhuma para o divã. Até porque a parte mais divertida de uma viagem são as conclusões apressadas.

Longe de casa nos sentimos verdadeiros antropólogos autodidatas. Depois de 15 minutos em qualquer lugar já elaboramos as mais complexas teorias sobre a cultura e o comportamento dos nativos. “Os parisienses não carregam mais baguetes debaixo do braço!”, concluímos, depois de extensas pesquisas entre as 3 e as 4 da tarde sentados num café em Saint-Germain.

Uma coisa é certa: os países são mais fáceis de decifrar do que as cidades. Países são masculinos – e, assim como os homens, podem ser classificados em no máximo quatro ou cinco tipos, estanques e previsíveis. Você vai a um país agora, e quando voltar daqui a uns anos ele pode ter enriquecido ou empobrecido, mudado de partido político ou de profissão, mas continuará fundamentalmente o mesmo.

Já as cidades são femininas: misteriosas, multifacetadas, dadas a repentes e fases. Enquanto os países nos recebem com formulários, funcionários públicos e cães farejadores, as cidades nos recebem com um “psiu!”. Algumas se revelam de dia, outras só se entregam à noite. Às vezes uma cidade pode parecer feia – mas normalmente é você que não deu tempo para ela se arrumar. Existem cidades que fazem você virar o pescoço na rua, e outras que só mostram a que vieram entre quatro paredes. Mesmo essas, contudo, dificilmente se deixam conhecer, digamos, biblicamente. Cidades são criaturas difíceis, que preferem ficar o tempo todo fazendo charminho.

Voltar a uma cidade é sempre fascinante, porque você nunca sabe o que pode ter acontecido. Cidades engordam, emagrecem, fazem plástica, engravidam, mudam o penteado, se apaixonam e até se divorciam (da população, quando os eleitores resolvem escolher um mau prefeito). Você pode dar azar e visitar uma cidade em plena crise de auto-estima ou no auge da TPM – tempos depois, ela pode estar de novo radiante e bem-amada. Vá saber…

Depois de muitas viagens, você até pode entender os humores de uma cidade. Mas conhecer, conhecer mesmo – não dá. Nem morando a vida inteira lá, sem arredar pé nem nas férias. Mesmo porque, de fato, a única maneira de conhecer de verdade o lugar em que se vive é viajando. Quanto mais lugares a gente não conhece, melhor a gente conhece o nosso.